CIRCUM-NAVEGAR (SOMOS MAGALHÃES)

Que viaje à roda do seu quarto, num movimento intrínseco perpétuo, quem aprecia a paisagem parada, por muito bela que possa parecer, enfim, percebe-se. Mas é pouco, definitivamente pouco, para alguém de alma maior, do tamanho do mundo sonhado e por sonhar e tudo o que está por fora do quarto vale a pena. Todas as noivas que ficaram por casar, todas as mães caladas a chorar, todo o sofrimento convertido em altar, todas as lágrimas que se fizeram mar em nome de ser português aventureiro.

Quantos de nós não quiseram voltar, quantos não o puderam fazer e, no entanto, em cada curva do oceano aparece uma nesga de terra tornada quintal e isso, dentro do tudo que há, é Portugal. Um ser e um estar abertos à eternidade por descobrir, ao mundo por criar e os marinheiros que não fugiram ao seu destino de povo eleito são os cantoneiros da palavra sentida que já não magoa os corações magoados e faz da água o seu próprio espelho.

O mar assim esculpido, lavrado pelo cinzel da vontade, é um mero menino adormecido de águas gigantes e plácidas, de rosto aborrecido e amuado quando encara os pioneiros na lavoura dos oceanos virgens, cheios de ilhas, pequenas filhas, que encantaram os marinheiros adocicados de luar. O mar assim vencido, de ondas e marés de correntes governadas, geme pelos cabos vacilantes que, dobrados, pereceram às mãos ávidas da descoberta. Mãos de marear, de içar velas e orar e levantar âncora a aproveitar o favor do vento onde murmura a voz rouca de um rei ancestral.

«Aos que me consideram um infiel vassalo, atiro estes versos escondidos na espuma das ondas que naufragam a esperança:

Quanto a ti, Pátria querida,
Mesmo sabendo que me queres matar,
Declaro que sou teu, de corpo e alma perdida,
Quando me deixaste na margem do mar.
E o vento num murmúrio pergunta:
“Quem és e donde vens?”
Sou Português e chamo-me Magalhães!»

Rui Sousa

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